Sonho de Pedra

por Andréa D'Amato

               Minha memória só é boa para coisas que nunca aconteceram. Desde sempre, no escuro do meu quarto, o meu sono é invadido por um sonho recorrente. Todas as noites sonho que sou pedra. Dessas que ficam na beira do rio, próximo à uma cachoeira, e que toda a gente gosta de se repousar. No meu sonho de pedra, as águas me atravessam com notícias de lugares distantes e tempos distintos. E eu lá, sempre no mesmo lugar, imóvel feito pedra na beira do rio. 

               Nos sonhos, com certa frequência, uma ou outra água gosta de me provocar, e ironicamente me questiona:

               - “ Você aí pedra, me diga, pretende permanecer no mesmo lugar até quando? Por toda a eternidade? Veja eu como sou livre! O passado está na minha nascente. Aqui, nesta cachoeira,  sou o presente. E logo ali, na minha foz,  encontrarei o futuro e serei mar.”

               Um dia, já farta das insinuações, retruquei com veemência:

                - “Sim, feito um ponteiro de relógio você percorre o seu destino. Enquanto em mim o tempo escorre, e eu permaneço. Mas francamente, passado,  presente, futuro ...  tolices, essas coisas não existem. Não se esqueça companheira água, apesar de ser pedra, sou apenas um sonho.  E como bem sabemos, nos sonhos tudo é permitido, pretérito e devir se entremeiam. Para mim todos os tempos são simultâneos”. 

                Mas confesso,  nestes sonhos desconexos, sinto-me solitária, mesmo com tamanha solidez. A ausência da ausência dói em mim. Ainda bem que existem outras noites, e outros sonhos.

                 Vez ou outra, sonho após sonho, as pessoas descansam sobre o meu corpo de pedra, e me segredam insignificâncias e delicadezas. Acho curioso, as pessoas gostam de me acariciar. Pensando bem, não é para menos, afinal é a minha pele dura que ajuda esquentar seus corpos gélidos e molhados. Kairós é uma dessas pessoas que me frequentam. E foi ela que, entre tantas confidências, sussurrou nos meus ouvidos de pedra:

                - “ Sabe amiga rocha (Kairós gosta de me chamar assim) , quando criança eu tinha o hábito de enxergar formas de luz na escuridão,  ficava horas tentando enxergar coisas que não existiam. Com o tempo aprendi a desconfiar das coisas, dessas que não existem, e das que existem também. E aprendi que a vida é feita assim de pequenas solidões. A vida, dona pedra,  a vida é um enevoado de acontecências”.

                 Foi assim, no delírio desses sonhos, que comecei a colecionar afetos e incertezas. E todas as manhãs quando acordo, volto a ser o que sempre fui, um velho álbum de fotografias.

 

São Paulo, 2014.