Será o Benedito?

 

Primeira individual de Andréa D'Amato realizada em 2007, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, com curadoria de Diógenes Moura.

Será o Benedito? mostra uma série de 25 fotografias que combinam retratos de mestres da cultura popular e cenas de festas tradicionais.

 

 

A Sedução dos Sentidos

Foi um personagem de nome Conceição Rosa, festeira e devota de São João, que há mais de 50 anos organiza os festejos para o santo na zona norte de São Paulo, quem levou sua neta, a fotógrafa Andréa D’Amato, para o incansável mundo da arte e religiosidade no Brasil. Incansável porque se trata de uma memória tão absolutamente enraizada e ainda tão pouco pesquisada nas suas profundas origens, que somente a perseverança da crença de personagens como Dona Conceição Rosa pode tornar viva e pungente tradições sem as quais não seríamos reconhecidos, num país ainda desconhecido dentro de si mesmo. São eles que levam para as ruas o seu mundo de brincantes e devotos, de reis e rainhas, de guardiões da sabedoria popular e de fazedores desse tempo de história e memória. São eles que, durante as manifestações de originalidade mais pura, encontram-se, uns aos outros, consigo mesmos. É a patrir desse olhar que Será o Benedito? torna-se, portanto, um retrato fiel de nós mesmos.

Muito mais do que uma série fotojornalística, as imagens que aqui estão perpassam um tempo de procura e resposta; de busca e de afirmação para um mundo valioso. Remontam os primórdios da construção do nosso imaginário, em manifestações muitas delas vindas de tradições européias e aqui transformadas pelas minúcias populares que tanto as aproxima do barroco brasileiro: a festa do divino; o maracatu de baque solto; a congada; a festa do Rosário; a Semana Santa. Andréa D’Amato vive as descobertas desse ofício há quase uma década, em andanças por várias regiões do país. Sua fotografia ritual e a descoberta de rostos escondidos, de cantigas atemporais e de um milagre somente possível através de outro milagre: como pessoas tão simples e de vida muitas vezes sacrificantes, conseguem erguer o manto, a coroa, o brilho e a máscara para revelar a soberania de um rosto inconfundível quando visto na plenitude de sua identidade?

Diógenes Moura

Curador de Fotografia

Pinacoteca do Estado de São Paulo