Futuro do Pretérito

 

Livro. Edição de 100 exemplares, numerados e assinados pela autora. Publicado pela Editora Quelônio.

Futuro do Pretérito é um dos indicados na seleção da Revista ZUM dos melhores livros de fotografia brasileiros de 2016.

Captação e edição: Maria Helena Sponchiado e Marcelo Parducci/Estúdio Carapaça

Três pequenas viagens por três grandes universos memoriais da família. Labirínticos, exigentes e profundos, os percursos orquestram ritmos e oscilações do afeto no tempo da memória. Movimentos regidos por episódios e rituais fotográficos da vida no seu cotidiano, de contornos ordinários, que beiram o trivial para um acontecimento futuro, daquilo que, todavia, já se deu.

            Um enigmático percurso-obra que a artista e fotógrafa Andrea D’Amato constitui ao longo de 12 fotografias escolhidas de seus álbuns de família, que desvelam como num curto circuito de frames, intervalos verbo-visuais, de histórias de passagens, como a de “Aspásia”, a de um “Cristo sem cabeça”, ou a aparição de uma blusa azul, de um quebra-cabeça, de um colar, de uma viagem ou de um sonho. De tanto, do que está por vir, num futuro...

Um Futuro do Pretérito, título deste trabalho, presente a partir do composto de três cadernos-interlúdios que buscam desvendar enigmaticamente a malha do tempo da memória. Neles, a artista fotógrafa nos propõe percorrer, bem devagar, por três vezes consecutivas, os volumes, repetindo nosso olhar sobre as mesmas fotografias. A cada volume, diferenciado apenas pelas cores verde, vermelha e azul, vamos deparando com pequenas porções de textos, narrados como se fossem uma voz não distante. Um ato sonoro demarcado por rastros emocionais, de um tempo de vida e da existência como um lugar do mistério, da dor e da paixão.

            Palavras que são também imagens, nas suas grafias, desenhadas, linhas ritmadas pela coreografia autoral e singular de três vidas, que tem em sua própria história as marcas invisíveis de uma carga de memória. Na voz comandada pela escrita de sua mãe, de seu irmão e de sua irmã, os três volumes confeccionados por Andrea D’Amato oferecem à luz do sensível,  não apenas a história de vida de sua família – uma história, neste caso, dedicada ao seu pai, que não por acaso exerceu a profissão de tipógrafo –, mas as histórias de todos nós, quando estamos ao lado daqueles que amamos e nos resta a reminiscência como prova de amor e vida.

            Histórias que são memórias, a matéria que faz ver as imagens do que nos toca o sensível. Andrea D’Amato expõe a memória como matéria-prima da criação e da reflexão sobre o modo de narrar e viver as linhas no horizonte tecido. Futuro do Pretérito também nos mostra e nos ensina outra face: que o processo artístico pode transgredir à obra e, como tal, nos deixar ver além do que se mostra, aspira a olhos vitais. O processo artístico talvez seja em última instância o próprio futuro do pretérito da obra. Essa capacidade de nos deixar vislumbrar o futuro, o por vir de algo acontecido. O fazer, em processo, nunca terminado, jamais completado, porém misteriosamente tornado visível ao pensamento intuitivo.

Fabiana Bruno

Doutora em Multimeios, pelo Instituto de Artes da Unicamp. Pesquisadora pós-doutora nos domínios da imagem, vinculada ao IFCH/ Unicamp/LA’GRIMA (Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem)

 

O livro mantém as mesmas características do projeto original

Três cadernos, as mesmas fotografias, diferentes histórias. Muitas vezes a fotografia seduz não pelo que ela mostra, mas pelo que esconde. Pela história que supomos existir e que ela não é capaz de contar. No texto  "Dez Proposições acerca do futuro da fotografia e dos fotógrafos do futuro" Maurício Lissovsky evidencia que os arquivos nos convidam a conjugar a história no Futuro do Pretérito. Um tempo verbal que faz a mediação entre o que foi, o que poderia ter sido, o que é e o que será. Neste ensaio Andréa D'Amato contou com o auxílio de sua mãe e irmãos. A junção dos três cadernos, expostos lado a lado com rememorações reveladas, cria um discurso estruturado por deslocamentos. O que estabelece a diferença não é algo que está na imagem. Está na atitude do observador. 

Futuro do Pretérito foi selecionado para a mostra de artes visuais do FEIA, Festival Estudantil do Instituto de Artes da UNICAMP.