Minha pequena coleção de incertezas e o caminho de volta para casa
por Andréa D'Amato

 

               Ainda adolescente coloquei o pé na estrada e comecei olhar o mundo através do visor . As viagens trouxeram a consciência da fotografia para a minha vida. Sempre acreditei, e continuo acreditando, que viajar e fotografar são dois meios de aproximação que proporcionam  possibilidades de encontro, com o outro e consigo.

               Estudei jornalismo e fui criada na escola do instante decisivo. Depois de quase 20 anos tirando poeira dos olhos, a fotografia me indagou. Impulsionada pela dúvida busquei conforto no antigo álbum de família. Olhando as folhas amareladas me deparei com fragmentos de lembranças remotas, encontrei recordações errantes e viajei a um tempo suspenso no ar.

               Em um belo texto chamado “Dez proposições acerca do futuro da fotografia e dos fotógrafos do futuro”, Maurício Lissovsky enuncia que “toda fotografia está grávida de sonhos” e continua: “Todo achado em uma imagem de arquivo é um olhar correspondido que atravessa eras, o reencontro de um porvir que o passado sonhara e que somente nossos sonhos de futuro permitem perceber.”

               As perdas da minha história pessoal, além de rupturas, trouxeram um ruído para minha fotografia. Esses ruídos revelaram novas perspectivas para o meu fazer fotográfico. Se antes eu perseguia instantes decisivos e momentos únicos, agora eu anseio as lacunas. A oportunidade de vasculhar as imagens do meu passado familiar e resignificá-las desfia as minhas convicções e orienta o meu caminho. Não sei ao certo se estou buscando respostas ou perguntas, a simples possibilidade do encontro ainda é o que mais me seduz.

 

São Paulo, 2014.