Cadernos de campo apresenta o processo de produção, vivências, anotações, fotografias e reflexões da pesquisa de mestrado “A comunidade do Alto da Bela Vista e o culto a Babá-Egún no ilê Agboulá; uma história (re)contada por imagens.

Trecho do artigo  Babá-Egún, imagens e outras forças no terreiro de Omo Ilê Agboulá (Itaparica/ BA),  apresentado na 31ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dia 09 e 12 de dezembro de 2018, Brasília/DF.

Trecho do artigo Babá-Egún, imagens e outras forças no terreiro de Omo Ilê Agboulá (Itaparica/ BA), apresentado na 31ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dia 09 e 12 de dezembro de 2018, Brasília/DF.

Subo o morro ansiosa. São três lances de ladeira íngreme em uma estradinha sem asfalto e praticamente intransitável para carros. No meio do segundo lance já estou exausta, o sol é forte, mas continuo minha caminhada. Tenho uma vaga lembrança onde fica a casa de Claudinho[1] e me dirijo até o local. Ele está à minha espera, encontro-o bem em frente ao barracão no terreno onde várias casas se espalham. Devo conhecer Claudinho há uns 10 anos, desde a primeira vez que vim à Itaparica. Sempre que nos encontramos na ilha (voltei para cá algumas vezes) ou no Aganjú[2] ele me cumprimenta com simpatia e conversamos um pouco sobre assuntos corriqueiros. Mas, desta vez, minha visita tem outro objetivo: apresentar o meu projeto de mestrado. Como sempre, me recebeu sorridente e falante, comentamos algumas amenidades, mas eu, com minha ansiedade habitual, logo introduzi o assunto que me levara até ali. Assim que adentrei sua casa, duas fotos, penduradas na parede amarela da sala, chamaram minha atenção. Perguntei sobre essas fotografias. Ele se afastou e ficou um tempo em silêncio, apenas olhando para as imagens, como se as tivesse observando pela primeira vez. Contou que a da direita era de Baba-Ibialá (o Babá de seu pai) e foi tirada no dia que ele ganhou a roupa. Claudinho disse que foi muito emocionante e especial, que todos da família choraram muito, que quando aconteceu o pai dele já tinha morrido há muito tempo, que demorou para tomar o aku (obrigação de 1 ano) e depois a obrigação de três, até a de sete, quando ganhou a roupa e se tornou Babá-Egún[3]. A outra foto era do próprio Claudinho quando mais jovem. Fiquei surpresa porque para mim a foto parecia ter um aspecto mais antigo, de modo que eu tinha imaginado ser o seu pai, não o próprio Claudinho. Embora eu não tenha comentado nada, penso que ele percebeu e achou a minha reação ao mesmo tempo engraçada e inesperada. Então Claudinho me confirmou que ele era igual a seu pai, era como se um fosse o outro, embora os tons de pele fossem diferentes. Quando perguntei como ele enxergava aquelas duas fotos juntas, assim lado a lado,  ele se afastou mais uma vez e observou as fotos quase como se o tempo tivesse se alterado nesse ato de olhar. Achei curioso esse movimento de se distanciar e se aproximar das fotos ao comentar sobre as próprias. Complementou que se via em seu pai. E que a foto provocava a saudade. Fiquei intrigada com a palavra saudade para definir a imagem. Então perguntei se o que sentia ao olhar para a fotografia era similar ao que sentia ao ver Babá-Ibialá nas aparições públicas durante os festejos no Agboulá. Mais uma vez ele se aproximou e mostrou dois ojés que estavam ao fundo na imagem, sentados atrás de Babá-Ibialá. Enquanto apontava os dois homens na fotografia, comentou que esses ojés hoje também eram Babá-Egún. Essa resposta me levou a uma outra questão, dessa vez eu queria saber o que ele sentia ao ver uma fotografia de seu pai (Arivaldo Barreto Nobre / não do Baba-Ibialá). Importante frisar que um Babá-Egún nunca é visto como a pessoa, mas sempre como o Egúngún daquela pessoa. Neste momento ele me levou para observar uma foto que estava na parede oposta, era uma imagem de Seu Domingos dos Santos (outro importante líder local, hoje também Babá-Egún) dentro do barracão. "Quando olho para meu tio Domingos aqui nessa fotografia, eu enxergo o Babá-Alajerê (o Babá de seu Domingos). É igual, a mesma postura, o mesmo jeito". Enquanto Claudinho falava, eu pensava na sobreposição de tempos, nas fotografias e na ancestralidade, mobilizando de diferentes maneiras as memórias, histórias e devires.

[1] Claudio Bispo Alves, ojé no Agboulá e meu principal contato na ilha.

[2] O Ilê Axé Opô Aganjú é um terreiro de culto a orixá, localizado em Lauro de Freitas, comandado pelo Babalorixá Balbino Daniel de Paula, ou Pai Obarayi, primo e homônimo do Alagbá do Omo Ilê Abouglá.

[3] As obrigações de um, de três e sete anos demarcam ciclos importantes dentro do candomblé e também no culto a Baba-Egúm. Muitas vezes esse período não corresponde ao nosso calendário, ou seja nem sempre uma obrigação de sete anos é dada quando se completa sete anos de iniciação. Existem casos de pessoas que já iniciaram há mais de vinte anos, mas ainda não passaram pela obrigação, portanto continuam sendo yâos. No candomblé, você só se torna egbomi (irmão mais velho), após dar a obrigação de sete anos, mesmo que essa obrigação seja dada após esse período.